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Suleiman Cassamo – “A escrita não é um baile de palavras bonitas”



A coerência do absurdo é que vai fazer um bom texto literário - Suleiman Cassamo | Foto: Júlio Marcos/Catalogus



Em conversa no programa OitentaNoventa, o escritor Suleiman Cassamo, com a timidez que lhe é reconhecida, mas sem ser contido, fala do exercício de escrita, comenta sobre seus mestres e revela alguns aspectos do seu recente romance “Carta da Mbonga: fragmentos de uma vida encalhada na estação”.


Um autor que cuja raiz da escrita está nas vidas do povo e que não foge disso. Pelo contrário, assume e ainda diz ser inevitável no caminho que encontrou a literatura que é uma forma de estabelecer relações.


Numa edição do OitentaNoventa conversando com também escritores, Mélio Tinga e Fernando Absalão, o autor do clássico “O Regresso do Morto” percorreu as suas obras, cujos excertos podem se ouvir na voz de Loide Nhaduco e David Bene, mas também falou dos seus mestres, com a mesma humildade dos seus personagens.


E sobre a escrita literária, o que provavelmente é o mote de um encontro em que se pretende que seja entre autores publicados nos Oitenta e os que na década a seguir nascem (e começam a publicar já em 2000), Suleiman Cassamo falou sobre os caminhos para encontrar a frase ou a história certa.


“O discurso literário é mais humano e directo. Não ajuda a literatura a forma mais oficiosa, pelo contrário. Mas isso não significa escrever mal.”


E o que faz de um texto ser bom texto literário?

“É preciso ter uma história para contar. Mas uma história não significa apenas uma história no sentido linear. Nós temos textos que foram escritos quase dentro de quatro paredes, com muito poucos elementos, mas o mais importante ainda do que a história, é criar uma atmosfera, mas isso implica por parte do escritor uma atitude de persistência, ele tem de persistir, insistir até que essa atmosfera se estabeleça. É claro que a atmosfera ela se torna viva, se torna real com a leitura. Com a colaboração do leitor, pois o próprio texto só existe no acto da leitura.”


Uma explicação complexa, mais do que tenciona afirmar o escritor. Porém Suleiman Cassamo acaba achando a frase certa.


“A coerência do absurdo é que vai fazer um bom texto literário. Portanto, a forma é que vai fazer um bom texto. Uma frase pode ter mil e uma maneira de ser escrita, mas talvez só uma interessa a literatura. E as restante mil não. Portanto o autor não pode ficar satisfeito com a primeira frase, tem de procurar, no meu entender até, uma forma mais simples.”

E como quem faz uma leitura ao contexto, afirma “a literatura não é um baile de palavras bonitas. Um baile para mostrar a exuberância do léxico”.


A conversa que foi transmitida no dia 03 de Dezembro, não podia encerrar sem uma abordagem ao recente romance de Suleiman Cassamo, “A Carta da Mbonga: fragmentos de uma vida encalhada na estação”, como um exemplo do que se refere. A atmosfera, a forma, conta mais em literatura.


“Em A Carta da Mbonga, nós temos sim uma história, mas temos um relato psicológico, nós temos um personagem que regressa à estação onde passou boa parte da sua vida. Mas ele regressa com intenção de por fim à sua dor. Não sabe bem como vai fazer isso, mas ele quer. Mas também quer dar chance ao destino para lhe trazer a carta que ele esperou durante anos e nunca chegou, em nenhum dos comboios. E ele passa o dia todo na estação. Durante todo esse tempo ele rebusca as memórias, faz uma viagem ao passado, há aí um relato psicológico também, ele anda à volta, reflectindo sobre o passado”.


 

Catalogus é uma plataforma que integra autores moçambicanos para valorizar o trabalho literário. Se é autor adere.


 

Assiste aqui a conversa com Suleiman Cassamo



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