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Eduardo White, eternamente...


Entre rebeldia, transgressão e afecto, seu lirismo inovou o quadro da poesia moçambicana, incorporando a metapoesia, ao mesmo tempo que se intertextualizou com poetas que cantaram o Índico, o amor, os sonhos - como Virgílio de Lemos, Glória de Sant' Anna -, atualizando legados literários do passado moçambicano.


Eduardo White / por Luís Santos, 2019


Por Carmen Lucia Tindó Secco Professora de Literaturas Africanas na Universidade Federal do Rio de Janeiro - Brasil


ETERNO


(...) Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno, a vida eterna, o fogo eterno.
(...)
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
(...) eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata (...) Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo. (...)

(ANDRADE, 1988, pp. 256-257)



À memória de Eduardo White dedico esses fragmentos do conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade. Cedo White partiu, mas deixou pulsante sua poesia: "marulho em nós de um mar profundo" (ANDRADE, 1988, p. 257). "Eternissíssimos" (ibidem) seus versos ficaram. Eternizaram-se. Pois "eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo/ mas com tamanha intensidade que se petrifica e/ nenhuma força o resgata"(ibidem).

Exímio leitor de Drummond, White nunca escondeu sua admiração pelo poeta de Itabira, conforme confidenciou, em entrevista, a Michel Laban:


Carlos Drummond de Andrade é o poeta que mais me toca porque consegue trabalhar a violência da realidade com toda a beleza e a seriedade com que os olhos de um poeta podem ver essa realidade. Estou-me lembrando do poema do distribuidor de leite, do menino que morre com um tiro, onde o sangue se cruza com o leite derramado. Isso é o Brasil - mas é toda essa violência do Brasil dita com poesia.E mais me toca profundamente porque é também o que eu procurei no País de mim: foi falar do amor, mas não do amor desajustado da realidade - quer dizer, o amor que a gente foi capaz de fazer, fomos capazes de dar e de receber, mesmo na realidade violenta que foi a guerra no nosso país. Aí eu aprendi muito com o Mestre Drummond de Andrade. De facto. (LABAN, 1998, v. III, p. 1203)


A temática do amor, o recorrente labor em relação ao verbo poético, a procura permanente da beleza estética não são, no entanto, as únicas afinidades entre esses dois poetas. Ambos operam com uma poiesis de sonhos e “relembranças”, procurando, no passado, imagens antigas, essenciais à recomposição da fraturada identidade. Como sonhadores à deriva, reinventam a poesia da realidade. Penetram nos desvãos do tempo e da linguagem, "no reino surdo das palavras", recriando estas em combinações inusitadas, devolvendo ao humano a capacidade de voar e imaginar.

Vianjante do amor, da poesia, dos voos imaginários, suas mãos tecem bordados intermináveis, cujos fios invisíveis, entretanto, dão nítida visibilidade a traços culturais moçambicanos, mesmo quando estes se encontram transfigurados pelo discurso elaborado de sua poesia: “mãos palpitantes e húmidas e claras em seu chão, que laranjas mais generosas para repartir, que nação tão levantada para viver” (WHITE, 2004, p.23). À semelhança do “gauche” drummondiano, White assume uma posição clandestina e rebelde em relação às convenções, tanto as sociais, como as ditadas pelo cânone literário oficial.

Poeta de inquietudes e desassossegos, White fez de sua poiesis uma viagem constante em busca dos sentidos da existência, do amor e da própria arquitetura poética. Entre rebeldia, transgressão e afecto, seu lirismo inovou o quadro da poesia moçambicana, incorporando a metapoesia, ao mesmo tempo que se intertextualizou com poetas que cantaram o Índico, o amor, os sonhos - como Virgílio de Lemos, Glória de Sant' Anna -, actualizando legados literários do passado moçambicano. Suas intertextualidades atravessaram o Índico, estabelecendo diálogos vários, entre os quais com João Cabral de Melo Neto, Kahlil Gibran, Clarice Lispector, escolhidos para abrirem o livro O Manual das Mãos por intermédio de significativas epígrafes.

Em O Manual das mãos, o sujeito lírico, em prosa poética, vai urdindo pactos biográficos com o texto, pactuando e compactuando com a poesia da linguagem, manejada artesanalmente por ele. Manual significa “o que é feito à mão”, “o que é relativo às mãos” (FERREIRA, 1999, p. 1276). Estas, nesse livro, servem como mediação entre o corpo que atua e os sentidos que fluem. As mãos se prestam a monólogos interiores, gestualizando lembranças de tantas vidas: é que – segundo Eduardo White – “as mãos escondem, para além das nossas, outras vidas em si presentes” (WHITE, 2004, p.21).

Possuindo também o sentido de “livro pequeno que contém noções de uma ciência ou de uma técnica” (FERREIRA, 1999, p. 1276), a palavra “manual” não só aponta para a artesania da escrita poética, como, metaforicamente, se converte em “manual de carpintaria” da própria poesia. No caso de White, que exercita, em suas obras, intensa metalinguagem poética, esse manual é o da “ciência de voar, o da engenharia” (WHITE, 1992) de alçar grandes voos imaginativos.

O Manual das mãos vai indicando atividades, sentimentos que são possíveis através das mãos: carícias, tecelagens, preces, amores, violências, desígnios, trabalhos, escritas. Pelo tato, chegam outros sentidos apalpados pela eroticidade do discurso de White: cheiros, sabores, sons. Interessante observar que manual, segundo os dicionários, também apresenta a significação de teclado musical. Com esse sentido, no livro de White, o manual se faz expressão do ritmo das palavras e da própria melodia poética. As mãos da poesia dedilham as teclas da escrita, alcançando acordes inusitados. São tantos os afazeres permitidos às mãos!... Desde o prazer de segurar uma taça de vinho, de colocar uma música a tocar, até o do gozo de viagens dentro do corpo e fora dele. O eu lírico celebra a vida para que esta não se perca na luz de seu olhar, no gesticular de suas mãos.

Nesse pequeno livro que se assemelha a um breviário de poesia, White explora as múltiplas possibilidades de prazer e desprazer das mãos: estas como instrumentos eróticos, como canções de esperança ou manuseio de tristezas, como alavancas para o trabalho ou servindo como formas de dominação e de sevícias.

As mãos de White se interpenetram às de Cabral de Melo Neto, às de Drummond de Andrade ou às de Manuel Bandeira, “fartas do lirismo comedido” (Bandeira, 1986, p. 4), de expedientes, protocolos e repartições. Revelam-se mãos de escrita, mãos de pura imaginação. Esta é fonte jorrante de miscigenações de cânones, etnias, linguagens. É barco que desliza impactante, preto e branco, para aquecer melhor a memória e escrever com letras grandes: ILHA DE MOÇAMBIQUE – “era para lá que eu queria partir.”( WHITE, 2004, p.62)

Segundo Fátima Mendonça,

que seja ao norte, a Ilha ( de Moçambique), o ponto de partida para esta viagem interior é certamente significante. A concentração de sinais vários, as sedas, os búzios, turbantes e filigranas, o séquito ajawa, o curandeiro macua, o pangaio, o m' siro, naus, garças, sob a sugestão marítima do Índico, não pode estar aqui dissociada da insularidade que a imagem evoca. Insularidade do Eu e do Outro. Do Corpo e da Terra. Do Nós e da Mátria. Lugar do encontro com Eros, espaço de fusão dos seres fusão simulada porque só permitida pelo sonho e apenas confirmada do alto da nossa racionalidade pela loucura e pela poesia. (MENDONÇA. In: WHITE, 1996, p.10)


A poética de White é uma viagem pela História de Moçambique, pelos meandros da língua portuguesa, pelos tecidos e entrelinhas do poético. O Manual das mãos propõe, em última instância, um itinerário poético e multifacetado sobre as múltiplas performances das mãos: claras, escuras, ambíguas, destras, “gauches, eróticas, simples, complexas, artesanais, técnicas. Mãos que rezam, castigam, costuram ou desenham. Mãos viandantes, que escrevem e imprimem, no barro da escrita, a marca de seus dedos, tecendo metapoética viagem pelos desvãos da poesia.

As mãos da poesia de Eduardo White continuam a "trovejar na casa da escrita" (WHITE, 1992, p.17). "Faísca" a eletrizar quem se debruça sobre seus poemas. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ, onde leciono há 26 anos as Literaturas Africanas em Língua Portuguesa, muitos alunos se encanta(ra)m pela obra de White, não só na Pós-Graduação, como é o caso da dissertação de Cíntia Machado de Campos Almeida, intitulada "Na Ponta da Pena: Moçambique em letras e cores", defendida em 2006 e disponível na internet, mas também nos cursos de Graduação, em que vários alunos escolhe(ra)m Eduardo White como tema de suas monografias finais.

Portanto, é valiosíssima a obra desse poeta para as literaturas em língua portuguesa. E, por ser essa mão vibrante que, a cada leitura, "troveja" e "ilumina" a "casa da escrita", cada poema e cada verso de Eduardo White afirmam sua eternidade, ou como diria Carlos Drummond de Andrade, sua "eternalidade", "criando e recriando, a cada instante novas categorias do eterno".


REFERÊNCIAS:


ALMEIDA, Cíntia Machado de Campos. Na Ponta da Pena: Moçambique em letras e cores. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas em Literaturas Africanas. Orientadora: Professora Doutora Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco. Rio de Janeiro: F. Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006.


ANDRADE, Carlos Drummond de."Eterno". In: Fazendeiro do ar. Poesia e prosa em um volume. 6.ed. revista e atualizada pelo autor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, pp. 256-257.


BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.


CANDIDO, Antonio. “Inquietudes na poesia de Carlos Drummond”. In: Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1965.

CHAVES, Rita. “Eduardo White: o sal da rebeldia sob ventos do oriente na poesia moçambicana”. In: SEPÚLVEDA, M. C.; SALGADO, M.T. (orgs.) África & Brasil: letras em laços. Rio de Janeiro: Ed. Atlântica, 2000.


FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: o Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.


LABAN, Michel. Moçambique. Encontro com escritores. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998. v. I, v. II e v. III.


LEITE, Ana Mafalda. “Poéticas do imaginário Elemental na Poesia Moçambicana: entre Mar... e Céu”. In: Literaturas africanas e formulações pós-coloniais. Lisboa: Colibri, 2003.


MENDONÇA, Fátima. "O Corpo do Índico". In: WHITE, Eduardo. Os materiais do amor seguido de O desafio à tristeza. Maputo: Ndjira, 1996. pp. 7-12.


SECCO, Carmen. “Carlos Drummond de Andrade: "o poeta de Itabira‟ evocado em África”. In: CHAVES, Rita; MACÊDO, Tânia; SECCO, Carmen (Orgs). Brasil/África: Como se o amor fosse mentira. Maputo: Imprensa Universitária, UEM, 2003.


SPINUZZA, Giulia. A poética de Eduardo White. Maputo: Ed. Alcance , 2016.


WHITE, Eduardo. Amar sobre o Índico. Maputo: AEMO, 1984.


______. O país de mim. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos, 1989.


______. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Caminho, 1992.


______. Os materiais do amor seguido de O desafio à tristeza. Maputo: Ndjira, 1996.


______. Dormir com Deus e um navio na língua. Braga: Labirinto, 2001


. ______. Manual das mãos. Porto: Campos das Letras, 2004.



TEXTO PUBLICADO NA REVISTA LITERATAS, MAIO DE 2019



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