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“Carta de Mbonga”: uma ode à paciência

No romance “Carta de Mbonga” Suleiman Cassamo coloca, na Estação de Vila Luísa de Marracuene, um homem esperando por uma carta (e por uma mulher) e leva a paciência deste ao limite, depois ao infinito.



O fio condutor do romance não é novo. O homem esperando uma mulher já inspirara várias baladas de amor. Uma delas é The Man Can Be Moved (2008), da banda irlandesa The Script. Uma música de amor, de encontro, desencontro e esperança de reencontro. Até onde o amor eivado pela saudade pode levar?


“Going back to the corner where I first saw you/ Gonna camp in my sleeping bag, I’m not not gonna move”. Citava os versos introdutórios.


Antes disso o que teria acontecido? Talvez, naquela esquina, tenham, ele e ela, trocado olhares. Talvez, também sorrisos. Talvez palavras. Talvez carícias. Talvez beijos. Talvez amor. Mas, certamente, há muito tempo não se viam. E a saudade levava-o de volta àquela esquina, na esperança de reencontra-la.


‘Cause if one day you wake up and find that you’re missing me/and your heart starts to wonder where on this earth I could be/ Thinking maybe you’ll come back here to the place that we’d meet/and you’d see me waiting for you on the corner of the street/ so I’m not moving/ I’m not moving.


Houve quem tentasse dissuadir o homem-que-não-se-pode-mover da sua missão. “Policeman says, ‘son, you can’t stay here’/ I said, ‘There’s someone I’m waiting for if it’s a day, a month, a year”. Por mais estúpida que parecesse aquela espera, ele continuaria, fizesse sol, caísse chuva, neve, granizos ou pedregulhos.


É, também, o amor-ausente-criador-da-saudade-que-leva-à-espera o fio condutor do último romance de Suleiman Cassamo, já duas vezes premiado. Primeiro em Angola – Prémio Sonangol. Depois em Moçambique – Prémio BCI de Literatura.


A Carta de Mbonga é, antes de mais, uma declaração de amor do autor a terra que o viu nascer. Afinal, é Marracuene o espaço geográfico deste romance de apenas 107 páginas.


Facilmente, confundimos o narrador (omnisciente e omnipresente) com o autor da obra, pela descrição apaixonada das paisagens cobrindo aquela terra, em tempos, conhecida como Vila Luísa. Atravessam a estória o Rio Incomáti, os tufos, os eucaliptos, as gaivotas, os pardais, as casuarinas - elementos identitários da Vila. Contudo, é a estação da Vila Luísa de Marracuene a principal referência do romance.


Uma estação de Comboio é um local, por excelência, de encontros e despedidas, chegadas e partidas. Mas, neste romance, afigura-se num espaço de espera, depois de ter sido de encontro e despedida. Afinal, é na estação da Vila Luísa de Marracuene, detalhadamente descrita pelo narrador, que Salatiel encontra e apaixona-se por Mbonga. Dela (a estação, não Mbonga) parte o comboio que os separa. E, nela, ele aguarda pela carta que ela (Mbonga) prometera enviar, na despedida do primeiro e único encontro de suas vidas, também na estação.


Salatiel contava doze anos, Mbonga mais ou menos essa idade. Foi uma paixão de infância que o prenderia a estação por décadas.


A espera iniciara, quando os comboios ainda viajavam carregados de missivas de saudades e estender-se-ia a um tempo em que já eram os telemóveis e os computadores os elos entre pessoas situadas em geografias distantes.

O carteiro da estação, Phêphâ, até tentou demover Salatiel daquela espera “Não precisa vir aqui. Chegando, eu mesmo lha entrego, lá em casa” (pág. 31). Mas para Salatiel esperar pela carta de Mbonga tornara-se uma questão existencial, razão de vida. No entanto, ao fim de duas décadas, já cansado da espera, mostra-se disposto a colocar uma corda ao pescoço em nome do amor, se a carta atrasasse ainda mais.


Mas, afinal, a ansiada carta havia sido enviada. No entanto, fora extraviada pelo factor da estação, Alfredo Chirindza, entretanto morto, por ciúmes. E é do Alfredo, em post-mortem, que Salatiel toma conhecimento. Nessa estrutura de montagem de cenários e episódios, Suleiman Cassamo dá uma volta, entende-se, no realismo mágico.


Posto isto, resta-nos um protagonista petrificado e sofrido, porém esperançado, afinal Mbonga havia enviado a carta. Diante desse cenário, Salatiel, talvez atrás de Mbonga, a procura de recuperar os vinte anos de separação impingidos pelo extravio da missiva, mete-se numa carruagem. E resta-nos a indagação: até onde o amor eivado pela saudade pode levar?

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