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“Tive a sorte e o azar de viver experiências terríveis.”, afirma Paulina Chiziane

“Viu a loucura empurrar-lhe para o limiar entre a vida e a morte. A sociedade a maltratar-lhe com os rótulos, enquanto se debatia para sobreviver. E sobreviveu. Aos 65 anos, cheia de certezas, Paulina Chiziane abre-nos a última porta da noite.”

Assim introduzem os jornalistas Elton Pila e Eduardo Quive a entrevista que fizeram à renomada escritora Paulina Chiziane, na sua residência no bairro de Albazini, arredores de Maputo, quando celebrava mais um aniversário. Um ano depois, isto é, já aos 66 anos de idade a entrevista vem ao público no site da revista LITERATAS, mas aqui ficam algumas respostas fortes da escritora.


Paulina Chiziane:

“A vida é mais perfeita do que a literatura. Há emoções vividas, que por muito que extraordinária escritora seja, não sou capaz de transmitir. Aprendi, a partir dessas experiências, o quão limitados nós somos, como escritores. A fotografia consegue ser um pouco melhor, regista a imagem do momento e pode até trazer alguma emoção. Mas a escrita não. É um mundo que é pouco conhecido por nós moçambicanos."



"Os moçambicanos conhecem muito pouco a sua própria terra. E quando conto estas histórias dizem logo que Paulina é uma fanfarrona. Começam a julgar muito antes de compreender a razão de ser daquilo que se está a passar.

A questão da competência linguística é uma questão séria. Eu vou ser competente em que língua? Na língua portuguesa, tento, mas jamais serei. A língua portuguesa não tem capacidade de transmitir a minha cultura. Quando vou escrever as plantas começa logo a dificuldade. Como escrevo «m’palha khufa»? A língua portuguesa é europeia. Uma língua que foi criada para carregar o mundo dos portugueses.

Há um trabalho que vocês um dia têm de fazer, que é rever os glossários. Os glossários são outra fonte de loucura. «Massala é uma fruta redonda, esférica, que parece bola, mas não é bola». O português não chega a Massala. Mas a minha língua sabe nomear cada planta e cada fruto. Vamos ver os pássaros da fauna africana. Tibokolwa, um pássaro que anuncia que o dia vai ser bom, que não faz parte da fauna europeia.

Existe também a questão dos sentimentos. Falar de amor, fazer amor, fazer sexo, o que é isso? Pegar na mulher, dar um beijo. Beijo? Nós, os africanos, pensamos que isto é aldrabar as mulheres. Duma cultura para outra, a palavra amor ganha outro significado.

Perde-se tanta riqueza cultural, emoções, objectos, sentimentos, que não conseguimos expressar. A língua que nos herdamos é uma língua que não é nossa. Talvez com o andar do tempo, façamos o que o Brasil conseguiu fazer, criar a sua língua, coisas típicas do Brasil. Este é um trabalho que não vai se resolver num dia. Mas é preciso acreditar.”


A entrevista completa por ser lida aqui.

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